A evolução da ciência médica, a mudança nas relações sociais, o trabalho de desgaste da imagem do médico (imprensa e governo), a facilidade dada ao paciente para processar (pelas normas jurídicas brasileiras), entre outras. Todos esses fatores desaguam e fundamentam uma relação entre médico e paciente estremecida, que somada aos ânimos aflorados, proporcionados pelo “estado enfermo”, a falta de educação de parte da população, a “procura por atendimento” e o caos da saúde brasileira, pode resultar facilmente na quebra desta relação, que por si só é extremamente frágil.

 

Todo o panorama da medicina atual favorece uma relação frágil, assim, qualquer adversidade poderá evoluir para a quebra desta relação, fato que pode resultar em processo judicial.

 

A quebra da relação médico X paciente é sem dúvida um dos fatos elencados como principal causa do processo judicial movido por pacientes contra médicos.

 

Tal afirmação é constatada diariamente, ao analisarmos os fatores e informações trazidas pelo médico. Essa constatação é também objeto de afirmação em diversos estudos, como segue:

  • …a razão primária pela qual o paciente denunciava o médico por imperícia, relataram que mais de 80% eram por causa de questões de comunicação“. (Dr. Manuel Maurício Gonçalves(Médico) – “Relação médico/paciente: profilaxia da denuncia contra o profissional”)
  • Em nossa experiência jurídica, em mais de 80% das ações contra médicos, nas diversas esferas (administrativa – CRM –, penal e cível), há alguma quebra da relação médico-paciente. (Sociedade de Pediatria de São Paulo: Pediatra Informe-se Boletim da SPSP Ano XXIII – No 133 – Assessoria de Imprensa – SPSP)

Após apontamentos é certo concluir que:

  • A boa relação entre médico/paciente é sem dúvida a maior defesa contra o processo. A boa relação com o paciente é elencada como fundamento da medicina defensiva moderna.
  • Alice Burkin (advogada nos EUA – especializada em ações judiciais movidas por pacientes contra os médicos) destaca a importância da boa relação como profilaxia:

“Em todos os meus anos de experiência nessa área, eu nunca vi um paciente dizer: ‘Eu realmente gosto desse médico, eu me sinto mal, mas terei que processá-lo.’ Na maioria das vezes os pacientes dizem: ‘Eu não creio que o ele (médico) tenha sido negligente, eu gosto dele e não irei processá-lo’.

 

O médico deve se adequar para a implementação de rotinas que visem a quebra da impessoalidade, objetivando uma boa relação entre médico e pacientes. A solidificação da confiança é fator fundamental para o exercício seguro da medicina.

 

  • CONDUTAS DO MÉDICO:

 

A confiança entre paciente e médico é um dos fatores mais importantes na medicina defensiva moderna.

 

É necessária uma boa interação com o paciente, resgatando a boa relação médico/paciente através do diálogo, conversas e da boa comunicação entre as partes nas consultas e atendimentos. O AMBIENTE DEVE SER CONTROLADO PELO MÉDICO.

 

Nos processos, existe o elemento subjetivo do paciente ou de seus familiares. Estes, procuraram tirar o peso de suas costas e colocar em outra. O amparo e a boa relação médico/paciente traz consequentemente, o “ambiente controlado”, assim, o aspecto subjetivo que encoraja pacientes e familiares a procurar a justiça, tende à ser inibido pelo profissional.

 

Deve vigorar a lição americana do “full desclosure”, ou seja, revelação total. A época do paternalismo médico foi dissipada pela evolução dos direitos civis. Informe SEMPRE ao paciente sobre as vulnerabilidades da ciência médica, dos riscos e consequências de cada procedimento ou tratamento.

 

Lembre-se: Para uma boa comunicação não são necessárias horas de conversa, alguns minutos de bom diálogo em linguagem acessível e boa interação, são suficientes.

 

Importante: A boa comunicação cinge-se em outros elementos que não somente “o verbal”. Muitos especialistas destacam que a boa comunicação deve ser composta em sua maior parte por gestos, expressividade, movimentação, postura – comunicação não verbal.

 

  • Em estudo realizado por um médico americano (Blink: The Power of Thinking Without Thinking), foram analisados médicos que já foram processados “versus” médicos que não haviam sido, chegando à seguinte conclusão:

 

  • Curiosamente, não havia diferença na quantidade ou qualidade de informação que deram (…); eles não forneceram mais detalhes sobre a medicação ou a condição do paciente. A diferença foi inteiramente na forma como se comunicou com os seus pacientes”.

 

Quando a relação entre médico/paciente é quebrada, o seguimento por outro colega é a melhor conduta, seja para o profissional, que se resguarda, assim como para o paciente, pois a relação de confiança é fundamental para o processo de cura.

 

Amanda Bernardes – Advogada Especialista em Defesa Médica

 



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